15 de ago. de 2012

Primavera...


Londres, era primavera.

...Um convite em envelope de linho, fechado e cravado com marca de brasão.
Uma festa para poucos convidados; Confesso minha surpresa, olhando as letras desenhadas,
onde escrito meu nome estava. Por instantes me senti importante.
Carruagem ao meu dispor, quanta mordomia para um simples observador.

Logo que cheguei eu o avistei, aparentava ter uns 42 anos.
Um homem brilhante, trazia na face um sorriso, 
os olhos verdes - sedutores e seu longo cabelo negro - noite.
Eu o observa. Destacava-se a elegância dos senhores feudais.
Em uma das mãos, brincava com uma fina fita de cetim preta.
Me despertava a imaginação.

Ele saboreava o vinho, e entre um gole e outro sua boca de vermelho - sangue se cobria. 
Meus pensamentos confusos me indagavam sobre estes meus desejos
Desejei tocar sua pele e beijar aqueles lábios.

Esperou o momento oportuno, coincidência ou não, sozinhos estavamos. 
Olhando-me diretamente nos olhos, um silêncio aterrorizante,
seus olhos verdes - sedutores enlaçaram-me qual corrente de fogo.
Estava eu diante de um homem. 
Homem, que me despertava todos os sentidos e desejos mais ocultos.

Ele sorriu, sabia que meus pensamentos me questionavam.
Não conseguia sequer pronunciar meu nome, sentia-me atordoado, aprisionado com milhões de perguntas.
Foi então que ouvi bem baixinho, um quase sussurrar - Posso eu dar-te um beijo?
A resposta chegou no meu pensar - Todos os meus beijos pertencem a ti!
Ajeitando seu longo cabelo com a fina fita de cetim preta
segurou-me em teu abraço, eu sentia o calor e o sabor do vinho tinto,
suavemente e sem relutar me entregava, 
um beijo por mim questionado, mas muito desejado.

A música tocava, as pessoas dançavam, o cheiro suave do vinho, sua pele macia, sua boca quente. 
Me sentia no ar, um levitar. Sangue, suor e sem lágrimas unidos em uma só carne.
Eu já não mais sabia, apenas sentia o meu coração gritar.

Ao despertar, em minha velha e singela poltrona, segurava na minha mão o envelope de linho,
com a marca do brasão e em letras desenhadas, 
lia-se:
Obrigado por me libertar, imaculado como tu eu nunca vi passar. 
Eu sofredor, prisioneiro das trevas e sofrimentos, 
contigo pude saborear o néctar doce deste teu amar. 
Levei um pouco de ti, e deixei-te um pouco de mim.

Assim começou minha vida, eu tinha apenas 15 anos.
A partir deste dia, de longe passei a observa-lo e a escrever sua - minha trajetória de vida.





6 comentários:

Junior Junior disse...

CARALHOOOOOOOOOOOOOOOO
Nossa brow... que show!!!!
Caramba... to rindo sozinho pela intensidade...
Que coisa linda...
Um dia eu fico assim... dono de uma visão transparente às palavras...
CARALHOOOOOO

Unknown disse...

Me transportei ao século XVIII, senti até o cheiro da carruagem das ruas.
Cara demais, sensibilidade a flor da pele.

Unknown disse...

Muito -foda- esse texto, apaixonante...
eu também Rui senti tudo...

klessya disse...

Hummmm a discrição dos elementos são ótimas. Tempo, espaço tudo bem ao alcance da mente. Bem, muito bem desenhado. O clima entre o que recebeu o envelope, e o senhor dos lábios vermelho-sangue de 42 anos, é incrivelmente cheio de tensão e desejos. Ficou muito bom.

klessya disse...

Não obstante, passado o deslumbre pela escrita, fiquei com a sensação de que ambos são a mesma pessoa, porque não achei algo que separa os dois personagens, eles parecem estar um dentro do outro, e assim se fundirem na mesma pessoa. Mas que ler e parabenizar, eu procuro compreender e discutir o texto, corrija-me se minha observação sobre o texto estiver equivocada.

J.S.Duran disse...

Existe uma pequena subliminar, quase imperceptivel que os separa... Esta é a graça na trama destes meus contos... A arte de questionar uma verdade 91.

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